Mumemo na primeira pessoa

Irmã Susana Marques
"Desde o ano 2000, com a tragédia das cheias que devastou o centro e sul de Moçambique, nós, Irmãs Franciscanas, sofrendo com o sofrimento do povo do nosso bairro Chamanculo C – tão duramente atingido – não podíamos deixar de agir perante tão pungente situação. A fúria das águas destruiu todas as casas de material precário, as latrinas e danificou as de alvenaria, arrastando na sua voragem os modestos haveres que possuíam.
Chamanculo ficou transformado num lago imundo e lamacento, obrigando a população a fugir espavorida daquela massa de água que os ameaçava e a correr em demanda de abrigo.
À nossa casa, o Convento de S. José, vimos chegar mais de uma centena de pessoas encharcadas até aos ossos, de mãos abertas como quem tenta ainda salvar o pouco que não perdeu, olhos amedrontados e a pedir socorro.
Demos abrigo, pão e fomos bater às portas de quem nos pudesse ajudar com mantas, esteiras, roupa, alimentos e lenha.
Os dias foram passando e um mês após esta catástrofe, pensando nós que tudo tivesse normalizado, demos uma volta pelo bairro acompanhadas por alguns dos refugiados ainda em nossa casa. Ficámos alarmadas ao ver o panorama chocante e desolador com que deparámos!
Centenas e centenas de famílias a viverem mergulhadas em água podre e estagnada até à cintura, corpos de bebés ainda enterrados na lama! As pessoas dormiam por cima de mesas e caixotes.
Nós, Irmãs Franciscanas, desconhecíamos em profundidade o viver desumano do bairro nosso vizinho! Era uma multidão que disputava um cantinho onde se pudesse acomodar, chegando a viver 20 pessoas na mesma pequena barraca, exposta todos os anos a sofrer inundações na época das chuvas.
Perante factos não há argumentos. Sentimo-nos interpeladas até ao mais fundo do nosso coração e desafiadas para uma nova realidade. Fora Deus que ali nos chamara para nos apontar a maior prioridade do tempo presente à nossa Missão Hospitaleira. É certo que não possuímos bens materiais, mas temos consciência de que a nossa voz encontra credibilidade juntos dos homens e organizações humanitárias.
Então fizemos nossa a voz destes mais pequeninos da sociedade e pusemo-nos em campo.
Batemos às portas da Caritas, das Embaixadas, do Governo, do Ministério de Segurança Social, das organizações humanitárias, trabalho extenuante de muitos meses pois Moçambique estava paralisado pelo caos.
Hoje Mumemo é uma comunidade em crescimento.
O Governo deu-nos um terreno a 30 kms de Maputo.
A Caritas espanhola e italiana construíram 500 casas de 2 quartos e sala.
O Ministério do Trabalho em Portugal construiu um centro profissional onde se podem preparar futuros electricistas, carpinteiros, padeiros, mecânicos, serralheiros, pintores, bate chapas.
A Apoiar criou um centro de costura e outro de informática, formou os nossos jovens deficientes para serem os futuros formadores nessas áreas; e ajuda a creche para as crianças mais desfavorecidas.
A Cafod assumiu a arborização do bairro.
Algumas Embaixadas ofereceram poços e os arruamentos.
Agora cada família tem a sua casa e um espaço para uma machamba, tendo recebido árvores de fruto e sementes. Gozam do apoio de um centro social, de um mercado onde podem vender os seus cultivos, artesanato e roupas, de uma Maternidade e de uma Igreja em crescimento, tanto físico como espiritual.
As populações começam a compreender que agora está a chegar a sua vez de transformar esta comunidade num projecto auto-sustentável em que a dignidade humana e o respeito pela natureza são valores que pretendemos implantar, desenvolver e fazer crescer, especialmente a partir das nossas crianças, futuro da nossa Pátria, Moçambique."
Irmã Susana Marques
Fraternidade de S. Francisco de Assis
Mumemo – Marracuene – Moçambique
(texto revisto pelo Proximizade)
Comments
Muito bom dia! :)
Passei por cá...
quero acompanhar o que vão divulgando e espero que me digam como é que se pode ajudar.
No meu blog há mais interessados na informação.
Um abraço solidário com todas as crianças do Mundo.
Posted by: Isabel Magalhães | novembro 3, 2005 11:23 AM
E muito bom dia para ti também, Isabel!
Já há uma de nós a cuidar do contacto contigo.
Que esse abraço chegue aos destinatários. Vamos todos fazer por isso!
Posted by: Proximizade | novembro 3, 2005 12:13 PM
também estou interessada em divulgar este site e de alguma forma também ajudar. parabéns pela iniciativa
sofialisboa
Posted by: sofialisboa | novembro 3, 2005 12:32 PM
Um texto de Esperança e acima de tudo fé! A união e o interesse das Comunidades, deve ser uma forma de incentivar, cada vez mais, a que as pessoas e o Mundo em geral se interessem por causas das pessoas e Povos mais carenciados.
É de louvar estas iniciativas.
Deixo um abraço, grata por esta partilha
Posted by: Menina_marota | novembro 3, 2005 03:01 PM
Olá, Sofia. Queres que te enviemos o código do que tem sido publicado por outros colegas?
É só dizeres... :)
Obrigado pelas tuas palavras gentis.
Posted by: Proximizade | novembro 3, 2005 04:17 PM
E é de esperança que se trata aqui, Menina Marota. Esperança e vontade de dar mais força a pessoas como a que neste post retratou a sua perspectiva factual.
Posted by: Proximizade | novembro 3, 2005 04:25 PM
Continuem, força!
Parabéns e obrigado!
vb.web.pt
Posted by: vitor | novembro 3, 2005 04:56 PM
Excelente iniciativa! Espero poder acompanhar tudo o que se fizer aqui.
Grande beijo e a minha solidariedade.
Posted by: Euza Noronha | novembro 3, 2005 08:04 PM
Excelente iniciativa! Espero poder acompanhar tudo o que se fizer aqui.
Grande beijo e a minha solidariedade.
Posted by: Euza Noronha | novembro 3, 2005 08:04 PM
Em nome deles(as), Vitor. Obrigado nós.
Posted by: Proximizade | novembro 3, 2005 09:46 PM
Euza: você merece bem um abraço duplo, amiga! Volte sempre. :)
Posted by: Proximizade | novembro 3, 2005 10:11 PM
Pretendo saber qual a carência que têm de medicamentos.Aguardo resposta.
Atentamente,
Pedro Henriques
Posted by: Pedro Henriques | fevereiro 21, 2007 12:07 AM
Olá, Boa Noite!
Hoje, através do programa Principes do Nada, tive conhecimento do Grande Trabalho que a Irmã
Maria Susana tem feito e das muitas dificuldades que enfrenta. Fiquei muito sensibilizada/emocionada e resolvi pesquisar para saber mais, tive a felicidade de descobir a vossa página. Gostaria que, se possível, me informassem como é que posso ter um(a) afilhado(a)em Mumemo.
Obrigada e muita força para o vosso trabalho.
Um abraço solidário.
Mila.
Posted by: Mila | fevereiro 21, 2007 01:46 AM
Para a si Mila, encontrei este site...
http://mumemo.no.sapo.pt/ajudar.html
Aqui estão mais algumas informações que talvez a ajudem.
Cumprimentos
Vera Pinto
Posted by: Vera Pinto | fevereiro 22, 2007 03:24 PM
Obrigada Vera pela indicação do site. Já acedi ao mesmo e consegui esclarecer algumas dúvidas que tinha.
Cumprimentos,
Mila :)
Posted by: Mila | fevereiro 25, 2007 06:27 PM
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Posted by: dfweo4 | março 11, 2008 05:50 PM
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Posted by: embkld | março 13, 2008 04:34 PM
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Posted by: dt56f | março 23, 2008 06:53 PM