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PROXIMAIL - "Extrema Função"

O Proximizade é uma realidade colectiva aberta à participação activa de quem o lê e o quer apoiar.

Nesse sentido, acolhemos com satisfação as contribuições que nos possam enviar e das quais seleccionaremos para publicação (nesta rubrica a que chamamos Proximail) as que melhor se enquadrarem no âmbito da missão a que nos propomos. As colaborações serão publicadas ao fim-de-semana.

Enviem as vossas propostas para o nosso email proximizade@gmail.com e exibam dessa forma o vosso empenho nesta causa comum.

Depois da estreia, com um texto da Filipa Paramés, segue-se hoje um texto do Jorge Manuel (Sharkinho).

ocaso savana.jpg

EXTREMA FUNÇÃO

A jovem médica, acabada de chegar ao acampamento, estacou na soleira da porta. Insectos voadores, enxames, batiam-lhe na pele sem cessar. Indiferente, Ana tentava ajustar o cérebro à multiplicidade de sensações que recolhia. O som da agonia, o cheiro da morte e a visão do inferno, combinados no interior de uma tenda de campanha para se apoderarem dos sentidos e enlouquecerem qualquer pessoa. Ana quase desmaiou.

Engoliu em seco e cruzou a fronteira do horror que a aguardava na sua primeira missão como voluntária. Dois médicos holandeses chocavam entre si, cada um embrenhado em diversas vidas para salvar. Três enfermeiras acudiam-lhes no que podiam. Encolhiam os ombros nas muitas vezes em que davam por falta dos meios indispensáveis para assistir os pacientes que definhavam, resignadas após quase seis meses a lidarem com a situação. Mas não paravam, antes desviavam a atenção para todos quantos lhes parecessem em condições mínimas para sobreviver.

Precisavam de vitórias, de pequenos milagres que lhes aliviassem o fardo permanente da impotência que prevalecia. Seleccionavam com o olhar os moribundos, afastavam-nos para um canto da tenda e concentravam-se nos que aparentavam algumas hipóteses de salvação. Estatística da mais crua, imposta pela necessidade, sobreposta ao coração.

Ana ainda não sabia que em circunstâncias extremas os critérios pré concebidos atingiam o apogeu da flexibilização. Estava chocada, tentava descortinar um ponto de partida para recuperar a lucidez e agarrou-se à ética profissional. Interrompeu o passo apressado de uma das enfermeiras, rosto duro e cansado, indicando-lhe os três pacientes no canto da tenda aos quais nenhum dos clínicos prestava qualquer tipo de atenção. A enfermeira olhou-a com estranheza, deu-lhe para as mãos um velho crucifixo esculpido em madeira local e prosseguiu a caminhada, tabuleiro de metal carregado de quase nada, cheio de esperança porém para outros seres humanos em aflição. A esses podiam dar uma forma alternativa para pararem de sofrer. Aos do canto da tenda, não.

A voluntária atordoada desistiu de reunir forças para protestar contra o que lhe parecia indigno. Observou por alguns instantes o trabalho incansável dos colegas, hesitou. Não se sentia capaz de acompanhar o ritmo insano da equipa, temia atrapalhar. Virou-se de novo para os três infelizes deitados nas macas improvisadas e decidiu avançar nessa direcção.

O primeiro que olhou mais de perto era um homem idoso, cadavérico, olhar baço revirado que anunciava estar muito próximo do fim. Seguiu para o do lado, um jovem soldado atingido no estômago por uma bala perdida. Tentou encontrar-lhe a pulsação e não conseguiu. Cobriu-lhe o rosto marcado pela dor com um lençol e abraçou-lhe as mãos ao crucifixo.

Restava um. Ana decidiu empenhar toda a sua dedicação no cuidado ao infeliz que se apagava como uma vela deixada ao vento de fim de tarde na savana que não voltaria a pisar. Aproximou-se devagar, com o sorriso mais agradável que conseguia produzir. O jovem moribundo, em delírio, fixou nela o seu olhar magoado por todas as dores do mundo, reunidas numa só pessoa.

Ana sentou-se ao lado do rapaz e observou-o, em busca de um diagnóstico alternativo, de um sinal que permitisse uma ténue esperança de salvação. Não o encontrou, antes percebeu que a medicina seria naquele caso uma simples ilusão que perturbaria o paciente na lenta caminhada para o fim.

Passou com todo o carinho um dos braços por detrás da nuca do adolescente, enquanto o acariciava no rosto com a outra mão. Trauteava baixinho algumas canções de embalar cujas palavras ele não percebia mas que pareciam enfeitiçar-lhe a expressão. Olhos negros muito abertos, ele murmurava uma frase que repetia sem cessar e esboçava a custo um sorriso para a loira vestida de branco que o tratava como uma mãe.

Minutos depois, o corpo do rapaz sacudiu um pouco e ele parou de murmurar. Atrás de Ana, a enfermeira pousou-lhe uma mão sobre o ombro e deu-lhe a entender que trataria do assunto a partir dali.

- Já está, agora vá até lá fora e aprecie os cheiros e os sons que o vento da savana lhe traz. Estou certa de que ainda não assistiu com atenção ao ocaso de fogo que a nossa terra tem para oferecer. - Segurou o braço de Ana e puxou-a devagar na direcção da saída.

Fora da tenda, a médica sentiu-se aturdida, incapaz de raciocinar. Apenas lhe ocorria à mente a frase repetida pelo rapaz, permanente, um mistério que pressentia importante de resolver.

- Você ouviu o que o...
- Okosha.
-...o que o Okosha me dizia? Conseguiu perceber?

A enfermeira passeou-lhe a palma da mão pelo rosto e sorriu.

- Ele dizia que este foi o dia em que Okosha, filho de Ngoma, conheceu o anjo que o acompanhará numa maravilhosa viagem para o Céu.

Abraçada a si própria, Ana contemplou o horizonte avermelhado até ao fim. Depois, limpou as lágrimas proibidas e reentrou no hospital de campanha, determinada

Vinte anos passados, Ana permanecia nos quadros da missão. Por cima da entrada da tenda, a figura amarelecida de um anjo, colocada por um familiar de Okosha, assinalava o melhor porto de abrigo para os mais aflitos, como uma estrela, com a luminosidade de um farol cravado no peito da escuridão.

Comments

Uma agradável surpresa, este texto aqui. De uma enorme dimensão humana, sem dúvida que tem lugar num blogue com o espírito do Proximizade. :-)

Eu diria que é um texto que tem lugar em qualquer blog...parabéns!

Nós também achamos, Cruzeiro e Mar, e agradecemos ao autor ter partilhado connosco este texto. Será que este exemplo não vos inspira para também escreverem?

Confesso que escrever "textos literários" não é a minha vocação...não iria sair nada jeito...:-)

Cruzeiro do Tejo,
Nem todos os belos textos, são literários.
Por vezes em duas linhas, lançam-se imensas ideias...

E, nem todos têm de ter autor... identificado claro :-)

Fiquei sem palavras para descrever a beleza do texto em si.
Espero por mais.
Jocas
Magna

Obrigado Magna.

Também nós esperamos por mais colaborações de leitores.

Podem enviar-nos os vossos textos para o e-mail proximizade[at]gmail[ponto]com.

Nisso concordo, por vezes duas linhas traduzem muito mais do que um grande texto literário.

lsoumo guvviuvdvuo

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