"Se pudéssemos ser cidadãos de pleno direito"

Nuno Vitorino, português, 28 anos de idade, atleta paralímpico e blogger do Natação Adaptada, é hoje entrevistado do Proximizade, para nos dar o seu testemunho sobre as barreiras arquitectónicas que continuam a subsistir em Portugal e as dificuldades quotidianas que um cidadão portador de deficiência enfrenta.
Proximizade - Em 1997, uma Lei do Estado Português obrigava a que fossem gradualmente eliminadas as barreiras arquitectónicas que dificultam a circulação do cidadão portador de deficiência. Estamos no final do ano de 2005; sente na realidade quotidiana o cumprimento desta lei?
Nuno Vitorino - O egoísmo reinante nos nossos governantes leva ao “Chico-espertismo” e a leis maquilhadas que nada servem a não ser para encobrir a responsabilidade que os nossos governantes deveriam ter para que nós, pessoas com algumas limitações, pudéssemos ser cidadãos de pleno direito.
P - Quais as barreiras arquitectónicas que é mais comum encontrar-se?... Como é que o cidadão portador de deficiência contorna essas situações?
NV - De maneira compreensiva. É desta forma que nós suportamos as dificuldades com que nos deparamos, pois existe sempre alguma alternativa; temos é que, muitas vezes, sermos os inventores dessas mesmas alternativas, ou como eu costumo dizer: “Enfim… Valha-me eu...”
P - Que edifícios considera emblemáticos do desrespeito para com o cidadão deficiente?
NV - O CCB - Centro Cultural de Belém; este grandioso edifício e espaço de actividades culturais não possui entrada para deficientes. Esta só é possível por um parque de estacionamento que nem sempre está aberto e no Porto, bem no Porto, a grande Casa da Música também é uma das vergonhas que possuímos neste nosso Portugal, com uma entrada só possível se tivermos como amigo o Luís de Matos para ultrapassar aquela escadaria e já comprovado por amigos meus que é impossível ir a Casa da Música. Enfim, no meio de tantos milhões, não houve 10 euros para fazer uma rampa…
P - Como consegue utilizar o Multibanco?
NV - Como nem tudo é mau, eu trabalho na Câmara Municipal de Lisboa e esta possui no seu interior 2 caixas ATM adaptadas a deficientes, sendo que é directamente a CML que tem feito um esforço para alterar a situação das pessoas portadoras de deficiência. Fosse assim tão fácil mudar mentalidades!
P - Os passeios deviam ser nivelados ao piso da estrada?
NV - É urgente que se façam essas alterações pois é impossível para qualquer cadeira de rodas circular nos passeios. A dificuldade é imensa; não é raro vermos cadeiras de rodas a circular na estrada precisamente porque os passeios estão cheios de carros, ou com obstáculos de vária ordem como sinais, postes de electricidade ou ainda com pedras da calçada soltas, uma verdadeira armadilha para as cadeiras.
P - Que outras dificuldades enfrentadas no dia a dia pelos cidadãos portadores de deficiência quer salientar, pela urgência necessária na sua resolução?
NV - Julgo que a burocracia existente à volta desta problemática é enorme, assim como a dificuldade que é conseguir ajudas técnicas inerentes às diversas deficiências. Seria tudo mais fácil se deixássemos de lado o “EU” para pensarmos mais no “NÓS”.
P - Em termos pessoais, que projectos de futuro quer ainda abraçar?
NV - Eu neste momento estou numa fase de estabilização pois acabei de abandonar a alta competição por causa de um projecto ainda maior: o de ser Pai e ainda por cima, de gémeos. Esta sim vai ser a minha grande causa “Hasta la muerte”…
Comments
Um beijo ao Nuno.
Posted by: Luna | dezembro 13, 2005 10:48 AM
fulblkkibov evxvmiuagi
Posted by: George | fevereiro 27, 2006 11:03 PM
A lei começará a ter mais força quando o dec lei 73/73 for abilido e consequentemente existirem os profissionais correctos a realizar o trabalho correcto, pois 90% do que é feito em Portugal não tem Arquitecto como podemos falar da iliminação de barreiras Arquitectónicas.
Posted by: Diogo Manuel Monteiro das Neves | fevereiro 28, 2006 08:40 PM