PROXIMAIL - Mar
Vou guardando as suas missivas com cuidado, religiosamente.
Porque cada uma é uma pequena jóia e, juntas, constituem um documento único, precioso, que mostro aos meus filhos para que aprendam a amizade, a generosidade, que releio sempre que sinto que pode fraquejar a minha fé nas pessoas, que toco com o carinho com que a hei-de abraçar, assim que regresse.
Uma obra para coleccionar e transmitir a outros.
Pedi-lhe, em tempos, autorização para publicar um texto seu e ela que sim, que sim, o que precisares, como queres que escreva sobre o mundo cá deste lado?
Não foi preciso que o escrevesse de propósito porque as mensagens que nos envia, aos seus amigos e família, periodicamente, são em si o retrato de uma terra, do seu povo, da vida que outros seres humanos vivem.
E também dos sorrisos. Como este que nos mandou, pintado no rosto de um menino, por pessoas como ela.

A Joana está há quase um ano na Turquia, numa missão voluntária de ajuda a refugiados. Sobretudo, crianças.
Um ano da sua vida a ajudar outras vidas a manter a esperança. Um ano a crescer, a amealhar a sabedoria que só conquistamos quando damos. Nos damos.
Como se pode ler nas palavras que nos manda e que aqui partilho, por duas razões: o orgulho que tenho em ser amiga desta menina e o exemplo que ela constitui para todos nós. Não, por três: dizer-lhe, Obrigada, Joana.
Com um beijo enorme para ela
da Mar
"Ando às voltas no teclado, a tentar decidir o que vos escrever. volto a tentar mais tarde, como nas chamadas telefónicas quando o destinatário não está. mas está. insisti escrever-vos de manhã cedo, já que agora, literalmente falando, o sol me acorda e é isto "volte a tentar mais tarde que amanhã é fim-de-semana, e pode ser que consiga".
"um pé...
.. e dois
uma meia
duas meias
sapato! o outro sapato!"
queria eu acordar com estas contas de matemática e achar que tenho tudo. por aqui acorda-se assim, com 20 pares de meias a entrarem e sapatos que nem sempre encontram o pé certo. nisto, tenho falta de vocês. não só de estar, mas de vos falar das coisas daqui. que desliguem as televisões e esqueçam muito do que vos dizem. está errado. ou pelo menos, incompleto. mostram o que capta a atenção do momento, mas depois esquecem-se do humano, das vidas, das mãos, dos medos, dos outros erros, do que se aprende, dos exemplos, das ideias... esquecem-se ou não querem mostrar e ficam assim, com imagens deste lado do mundo que não encaixam em filme nenhum. escrevo-vos: apaguem as televisões por momentos. ou escutem-nas ao mesmo tempo em que pensam "pode não ser assim". multiplicadoras de preconceitos, televisões: calem-se. ao resto é deitar mãos às ideias, e ver no que dá.
mas o mundo turco, com tudo o que não funciona, com um social que em muitos parâmetros não existe, também ensina. e aqui estou. se os meus colegas de faculdade, amigos de letras com sede de mundo, se lembram, numa das aulas de Antropologia Política, na qual discutíamos a possibilidade da Turquia fazer parte da União Europeia o professor, Jorge Crespo, disse que não nos enganássemos. a sua ideia: há que estar lá para saber, um saber que não se resume aos museus, às salas de cinema, às letras dos livros, aos músicos... um saber que se sente, que abarca o modo de sorrir da gente, o jeito de pegar na 'darbuka' antes de tocar um ritmo diferente - pés que andam no chão com fundo de terra. o Mundo.
Um tom:
"Cada um sabe dos gostos que tem
Suas escolhas, suas curas
Seus jardins
De que adianta a espera de alguém?
O mundo todo reside
Dentro, em mim
Cada um pode com a força que tem
Na leveza e na doçura
De ser feliz."
'Onde ir', Vanessa da Mata
Por hoje é assim, que amanhã, 1 de Abril, vou acordar com 21 anos no bolso. Parabéns a vocês, que me dão tudo sem se darem conta disso.
Abraço-vos forte,
joana"
